Embriaguez

1 11 2008

A embriaguez dos sentidos sempre me fascinou. Quando estou tomada pelo êxtase dos excessos, ironicamente enxergo além! Vejo além do que os olhos virtuosos podem ver. Talvez até consigam visualizar, mas não compreender.

Olhos virtuosos tendem a julgar o que vêem e param por ai. Olhos embriagados procuram entender as motivações daquilo que testemunham, desafiam os limites e cutucam as feridas. O que te fascina mais? Um olhar reprovador ou um olhar cúmplice? À sua escolha!

Quanto aos aromas posso dizer que são um termômetro realmente eficaz! Tendem a nos dizer se algo vale a pena ou não, afinal apenas o que não serve mais cheira mal, seja um prato, um ato ou a podridão de se apegar demasiadamente ao que já se passou. Quem nunca se inebriou com o aroma da pessoa amada, que virtuosamente me julgue! Mas tudo ao seu tempo.

Antes perceba que se os aromas mostram o caminho, o paladar os percorre. Um vinho não deve ser julgado apenas pelo seu gosto, suave ou seco. E sua temperatura? E o seu teor alcoólico? E a companhia? Muitas vezes a embriaguez se deve mais à companhia do que propriamente à bebida.

Se já se embriagou com o gosto de “água na boca”, mesmo que inconscientemente, aprendeu a seguir os passos do seu objeto de desejo, ainda que este não esteja em seu campo de visão. Ouça seus passos se aproximando, perceba o som de sua respiração. É ofegante? Serena? Somente quem se embriaga do outro, pode sinceramente se declarar apaixonado!

E aos amantes das sutilezas, nada mais envolvente do que o toque. É ele quem denuncia a maciez da pele, sua textura e temperatura. Tire suas conclusões.

Há quem reprove os ébrios, mas certamente não se preocupam em perceber o que causou tal embriaguez, a luminosidade do olhar, o doce aroma, o sabor, a visão ou o toque? Ou ambos?

Embriagai-vos!

Luciana Muniz





A Cela

1 11 2008

Bastava uma palavra sua e eu seria salvo, mas você não acreditou em mim.

Não aceitou minha inocência e não foi capaz de ser o meu álibi. Agora a escuridão de uma cela fria e úmida é a minha morada. Raramente a luz do sol banha o meu rosto e mesmo que o fizesse com freqüência, seria para iluminar as lágrimas que teimam em banhar minha face.

Quase nunca tenho com quem conversar, eles fingem que não me escutam!

Há muito desisti de gritar, de esmurrar as pareces e atirar as refeições nas grades da cela.

Muitas vezes me pego falando para as paredes que estou aqui de passagem, aqui não é o meu lugar! Jamais deveria ter sido! E, no entanto estou aqui, encolhido e com medo de mais injustiças. Eu não confio mais na justiça dos homens. Perdi a fé! Se existisse algo maior olhando por suas criaturas, acredito que esta força não permitiria a profundidade do sofrimento que estou vivendo no lugar de outra pessoa.

Se você me pedisse para estar aqui por você, eu suportaria tudo, lutaria e viveria cada dia esperando te reencontrar, se tivesse a certeza de que você acreditava em minhas palavras.

Mas desisti de contar o tempo, não sei mais em que ano estou e não preciso disso! De que adianta? Sei que muitos anos passarão, farei força para resistir a eles e a inerente loucura à qual um homem enjaulado se ajusta.

Também pensei em me entregar à morte, mas refleti profundamente e entendi que preciso vencer, pois quero te reencontrar só mais uma vez. Vivo para o dia em que olharei profundamente em seus olhos negros e vislumbrarei o remorso traduzido em uma única lágrima.

E neste dia abençoarei a cela que abrigou por incontáveis anos um inocente.

Luciana Muniz





Lágrimas de uma Ébria

1 11 2008

Desconfio que o sentimento inerente ao ser humano não é o amor. É a consciência de si mesmo.

Podemos amar com fervor e em questões de segundos odiar de maneira repugnante a mesma e idolatrada pessoa. Basta uma palavra, um gesto, um sinal… Nada mais vale a pena, o abraço deixa de ser caloroso, o gosto do vinho parece agora muito mais amargo!

A fragilidade e suavidade do amor deixam de ter sentido e agora me parecem mesmo ridículas, o ódio me deixa mais forte, ao lado deste amante fiel encontro um verdadeiro escudo contra as amarguras propiciadas pelos sentimentos ditos “bons”.

O amor é loucura! Se fores cônscio de teus sentimentos, esconde-o! Nada ganharás a não ser o riso sarcástico de seu objeto de desejo. Sim! Objeto de desejo… Pois o amor é egoísta e não aceita dividir o seu território, teme a perda, sofre… Como sofre! E como chora… Ainda posso sentir a embriaguez dos sentidos e o coração apertado, me corroendo por dentro, querendo vazar, querendo gritar!

Não adianta tentares conte-lo. Ele certamente se voltará contra ti e irá gritar com mais força. Não há como contê-lo. Apenas como fazê-lo adormecer e cuidares sempre para que ele jamais acorde de seu sono profundo. Porque uma vez desperto ele se torna ainda mais perigoso, ainda mais sagaz e um sonhador indomável! Como um filete de água que escorre pelos muros úmidos de uma represa, um perigo sempre iminente…

Luciana Muniz





Considerações sobre Paixões e Amores

1 11 2008

Hoje sei que sou completa. Às vésperas de começar a conquistar o mundo que sonhei, vejo o quanto fui forte todos estes anos. Adquiri a sabedoria de amar sem esperar nada em troca, apenas pelo prazer de senti-lo em mim. Pois a pessoa amada não tem a obrigação de me corresponder somente porque a amo! É muito fácil confundir uma paixão arrebatadora com amor, mas somente quem ama sabe distinguir as diferenças essenciais entre estes dois sentimentos.

A paixão nos impulsiona para os braços desejados, arrepia a nossa pele, o coração bate aceleradamente e a respiração fica ofegante. Está muito mais associada ao capricho e ao desejo do que à nobreza de sentimentos. É o sentimento mais inquietante que já conheci.

Já o amor… Ah… O amor… Este nos embriaga de uma maneira mais sutil, mais densa e muito mais profunda. Não nos deixa arrebatados de desejo e com a fúria da possessão quando não somos correspondidos, muito pelo contrário. É capaz de grandes sacrifícios, de matar ou morrer por aquilo que se sente. Quem ama perdoa os defeitos e enaltece as qualidades, não se incomoda com o frio do inverno e menos ainda com os espinhos da rosa.

Ele nos acalma e nos completa, nos faz sentir que somos melhores porque o sentimos verdadeiramente, sem esperar que o outro venha ficar ao nosso lado, sem aprisionar e sem ser aprisionado.

O verdadeiro amor é aquele em que o outro está ao nosso lado por livre e espontânea vontade, sem interesses, sem carências e sem a obrigação de ser o mais interessante ou o mais bonito. É apenas ele mesmo, sem máscaras.

Não diga “eu te amo” para provar o que sente. Não exija provas de amor.

Seja livre! Deixe livre! O amor se encarregará de mantê-lo próximo a você, mesmo quando ele estiver longe, muito longe… Terás a segurança de senti-lo em você e mesmo inconscientemente, saber se está tudo bem ou não.

Adquira a sabedoria de amar e então compreenderás que a paixão nos aprisiona e o amor nos liberta!

Luciana Muniz