Abecedário de Promessas

22 12 2009

2009 se preparando para dizer “FUI!”. Nestes derradeiros dias do ano muitas pessoas refletem sobre o ciclo que se completa e fazem o balanço do famoso “Foi Bom”, “Foi Ruim”.

Eu também não escapo destas reflexões e posso dizer que, de um modo geral, 2009 foi um ano excelente, onde conquistei muitas coisas, a maioria de forma inesperada, o que foi ainda melhor.

E prá 2010, seguindo a linha da minha religião (A vida é uma festa!) planejei algumas ações, são elas:

Amar! Não apenas pessoas, amigos, mas também projetos, livros, lugares, guloseimas…

Beber! Porque eu também sou filha de Deus!

Celebrar! Vitórias, aprendizados, conquistas, a sexta-feira…

Dançar! Muito, bastante, demais.

Escrever! Muito, bastante, demais.

Fotografar! Todos os momentos que merecem ser eternizados.

Gastar! Conscientemente.

Humanizar! O mundo precisa disso.

Inventar! Novas formas de se divertir e ser feliz.

Jejuar! Salada de jiló ou quiabo no almoço? Vamos jejuar!

Kibon! Sorvete, sorvete, sorvete!

Ler! Muito mesmo, nunca é demais.

Música! Adoro!

Nadar! Aprendi, mas tenho que aperfeiçoar.

Ouvir! O que vale a pena ser ouvido.

Priorizar! A família, as verdadeiras amizades, os projetos pessoais.

Questionar! Jamais me conformar com o óbvio, buscar respostas concretas.

Rir! De tudo e de todos, contudo consciente da hora de ser séria.

Sacudir! A poeira e seguir em frente.

Tolerar! Algumas criaturinhas, modelos de como NÃO levar a vida.

Universo! Continue conspirando sempre a meu favor!

Viajar! Prá perto, prá longe, em pensamento…

Www! Ficará rapidinha lá em casa, prometo!

Xeque-mate! Em tudo o que não servir mais, considere aqui projetos, fatos e crenças.

Yoga! Tudo de bom!

Zuar! Os que são muito críticos ou negativistas, xô! Sai prá lá!

E vambora prá 2010! ;)

Luciana Muniz





One by One

1 02 2009

Medo. Medo não, pavor! Pânico? Não sei… A verdade é que deixar de sentir os pés no chão da piscina ou de um rio ou mesmo do mar, sempre me apavorou. Entrar em um terreno desconhecido e com possibilidade de perder o controle sempre mexeu demais comigo. Em todos os aspectos.

Decidir me libertar de um dos meus medos foi uma atitude tomada em meio a um belo porre de vinho barato, mas estou seguindo em frente. E não pensei muito antes de me matricular em uma academia para ter aulas de natação.

Chegando à academia, encontrei no vestiário uma japonesa que também faz aula. De touca e óculos cor de rosa, confesso que ela aliviou o meu receio de pagar mico saindo do vestiário vestida a caráter para minha primeira aula.

O primeiro exercício foi atravessar a piscina segurando nas barras laterais – Para sentir a profundidade da piscina. – indicou a professora. Devagar, mas constante, fiz o que pediu e cheguei viva até o outro lado.

O segundo exercício foi o de respiração. Este causou estranheza no início, mas depois me acostumei a soltar bolinhas pela boca embaixo d’água. Quando a professora percebeu que já estava dominando os exercícios de respiração, me entregou a temida pranchinha e pediu que eu flutuasse na piscina, fazendo o exercício de respiração que havia acabado de aprender. Depois de um tempo a pranchinha foi trocada por um minúsculo flutuador e depois por nada, eu deveria flutuar sozinha!

Natação

Depois disso foi a vez de bater os pés segurando na escadinha da piscina. E novamente os exercícios com a pranchinha e o flutuador até chegar ao final da aula nadando! Fiquei surpresa ao perceber o quanto nadar é instintivo. Bastaram algumas orientações e disciplina. Foi uma experiência excelente para uma primeira aula. Agora a questão é aperfeiçoar e ganhar cada vez mais confiança.

O primeiro passo foi dado, ou melhor, o primeiro mergulho foi dado. Um medo a menos, uma vitória a mais. O próximo passo? Passar para os próximos medos e eliminá-los. Um a um.

Seguirei fielmente os conselhos de um velho amigo quando estávamos bêbados em uma mesa de bar:

– Liberte-se! Entre em erupção…

Luciana Muniz





Feliz Dia dos Mortos!

2 11 2008

Finados, mortos, falecidos, desintegrados, espíritos… Quem são estes que não mais existem e que ainda assim mexem com o pensamento de muitos de nós?

O que fazer quando as lágrimas já não são mais suficientes para afastar o pensamento que insiste em navegar em lembranças nem sempre agradáveis? É difícil olhar para si mesmo e se dar conta da necrópole que se formou.

Muito se engana quem acredita apenas na morte física, pois muitas são as suas formas, há diversas maneiras de nos anularmos e jogarmos a toalha no chão.

Alguns casos são temporários e logo nos damos conta do quanto estamos desistindo fácil demais dos nossos objetivos. Mas nem sempre é assim.

Por exemplo, a dona de casa que abdicou dos seus sonhos para criar os filhos, vivendo para eles e se esquecendo de si mesma. Ou mesmo a noiva ou noivo que, abandonados no altar, se fecharam para todas as outras possibilidades de felicidade. Muitos são os exemplos, muitas são as histórias e os motivos, mas ainda assim nada que justifique se conformar.

Será que aquele que no auge do seu egoísmo, achou que não precisava de mais ninguém e se isolou de todos, pode gritar aos quatro ventos que vive em paz consigo mesmo?

Vivemos para aprender a cada dia com os nossos acertos e com os nossos erros, para compartilhar, amar, sonhar… Quem está fechado para estas impressões, está fechado para a vida e, portanto, morto.

Para estes só tenho a desejar não um bom feriado, prolongado na maioria das vezes, mas um feliz dia dos mortos.

Luciana Muniz





Abrindo caminho entre as traças

1 11 2008

Esta semana um amigo me pediu que lhe enviasse um dos meus textos, pois foi procurá-lo pelas bandas do finado Shadow of the Moon e só encontrou a plaquinha com o anuncio da aposentadoria do blog.

Pensando nisso, resolvi disponibilizar aqui os textos que constavam por lá e que não foram publicados em outros locais, como o blog do livro Soltando o Verbo e o site Novas Visões.

Agora a aba Crônicas conta com mais textos para visualização, basta clicar nos títulos para visualizar os antigos textos do Shadow of the Moon.

E como sempre, comentários, críticas e sugestões são mais que bem vindos! ;)

Luciana Muniz





Pronome

1 11 2008

Eu:

Duas em uma. Ora doce, ora amarga, ora infame, ora benevolente, apaixonada! Sei o gosto do mel e do fel. Totalmente passional, guiada pela intuição e pelo olhar daquele que despertou algo dentro de mim. Algo que até então eu desconhecia.

Tu:

Um sonho que se tornou real. Aquele que era aguardado, há muito idealizado, com todas as qualidades e defeitos e um leve toque sobrenatural. Você existe! É real, mas ainda inatingível, pois há uma fortaleza te guardando.

Ela:

Dedicada guerreira, sabe de suas potencialidades e da paixão que defende. Convive com aquele que me seduz, mas ainda desconhece o que se passa em seu coração e principalmente em sua alma.

Nós:

Descobertos um pelo outro. Sabemos o que está acontecendo e justamente por não desconhecer a dimensão do que sentimos, agimos com diplomacia, pois não queremos magoar ninguém.

Vós:

Uma incógnita. Seria pretensão citar qualquer opinião sobre algo que desconheço. Prefiro assim, é menos dolorido.

Eles:

Talvez não tenham percebido. Somos dissimulados. Mas é questão de tempo até notarem o brilho em meu olhar a te fitar ou você exageradamente preocupado com tudo o que me cerca. Sempre criando mil e uma desculpas para ficarmos próximos um do outro. Talvez não compreendam, talvez nos julguem mal ou ainda dissimulem nada perceber.

Luciana Muniz





SubESTIMAR

1 11 2008

Não me subestime porque sou uma mulher. Não me olhe com desdém porque não tenho tanta força física, não cuspo no chão e não falo alto, você não é melhor do que eu.

Eu posso te superar e para isso não preciso usar a força, prometo nem mesmo alterar o tom da minha voz, que para você continuará a ser sempre um sussurro.

Até quando a intolerância prevalecerá e você se considerará superior, quando, no entanto precisamos um do outro?

Você é tão forte… Mas chora como um menino quando seus projetos de vida não saem ao seu modo.

Você é tão seguro, mas se desespera quando percebe o meu olhar parando em outro.

Por que me subestima tanto?

Você não sente a natureza se manifestando em seu corpo uma vez a cada mês. Não sente a vida e a morte em um ciclo interminável, que me dilacera, me tortura e me fortalece a cada lua cheia que se apresenta no céu! Não sente a dor que me divide ao meio, me faz enlouquecer e que se esvai por entre o meu ventre me tornando energicamente mais forte, pronta para gerar vida e transformar o mundo. O seu mundo…

Você tem tantos conhecimentos, fala com desenvoltura sobre tantos assuntos, mas será que toda a sua cultura não é capaz de fazê-lo entender?

Tem certeza de que está no controle?

Por que presta tanta atenção aos que me rodeiam e sucumbem aos meus encantos? Eles o ferem de algum modo?

Não quero que sinta ciúmes. Quero que compreenda que posso ser tão livre quanto você, que tenho as mesmas possibilidades de aventuras e isso não me torna melhor ou pior, apenas igual a você.

Você escuta a minha voz a cantarolar uma canção e não se dá conta de que a letra fala exatamente dos meus sentimentos por aquele que, mesmo moldado pelo machismo existente em abundância na sociedade, despertou com a sua força de espírito a minha curiosidade feminina.

Será que ainda assim não sente a sutileza das minhas manipulações?

Não subestime a minha inteligência, eu sei o que fazer. Por mais delicada que eu possa parecer, enxergo com o coração e jamais me engano.

Você será meu, é inevitável! Eu o escolhi…

Luciana Muniz





O Bronze imaginário

13 07 2008

Quando cheguei ao aeroporto muitos nos aguardavam, estavam ansiosos para receber todos aqueles que participariam da importante exposição. Somente as melhores obras daquele famoso escultor seriam expostas, e eu estava orgulhosa por participar de um evento tão badalado.

O transporte das peças para o museu foi demorado, calor intenso, muito trânsito e eu me sentindo mal por ter que fazer o trajeto frente a frente com um arqueiro de bronze a me fitar, e com sua flecha apontada para os meus pés. Por um instante achei graça deste meu mal estar, totalmente imaginário, ele nada poderia fazer para me ferir.

Finalmente chegamos ao museu, que já contava com mais pessoas especialmente selecionadas para cuidar do bem estar daqueles que dariam sentido à toda aquela logística de transporte. O dia se foi e eu aguardei pacientemente que o sol novamente se elevasse no horizonte, para então observar atentamente a fisionomia das pessoas que visitariam a exposição. Para mim é gratificante ver as mais diversas reações nos rostos que fitam as telas e as esculturas. Uns se admiram com os contornos perfeitos esculpidos artisticamente no bronze, outros se emocionam com a expressão facial das minhas companheiras e se põem a pensar intimamente em mil coisas. Eu as chamo de companheiras porque as vejo assim, como verdadeiras irmãs, pois junto delas viajei pelo mundo, fazendo parte da rotina de muitas exposições. Mas esta exposição em especial teve um sabor diferenciado para mim.

Aconteceu no terceiro dia em que o museu abriu suas portas para os visitantes. Uma garota dos seus oito anos se aproximou timidamente de mim, mas de início não reparei muito nela, pois não imaginava que em mim houvesse qualquer coisa que despertasse a curiosidade infantil. Mas os minutos corriam velozmente e ela não parava de me examinar, confesso que me senti incomodada, principalmente quando em uma olhadela, reparei que ela imitava a minha postura. Seus pais vieram ao seu encalço e eu não entendi porque ficaram com os olhos rasos de lágrimas. Por fim ouvi a mãe confessar baixinho para o marido que sentia um nó na garganta só de pensar que a pequena não sobreviveria a tempo de se tornar a primeira bailarina do teatro municipal. Tinha uma doença grave e sabia disso, por isso era tão silenciosa.

Depois daquela tarde comecei a imaginar as motivações que levam os escultores a criar esculturas tão perfeitas, tão reais. Se eu tivesse o dom de criar algo, faria exatamente como o meu mestre fez, criaria uma bailarina com uma linda saia em musselina e as longas madeixas presas em uma trança. Uma peça que inspirasse e ao mesmo tempo enchesse de esperança os corações daqueles que soubessem ver vida em uma escultura de bronze como eu.

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Luciana Muniz