A embriaguez dos sentidos sempre me fascinou. Quando estou tomada pelo êxtase dos excessos, ironicamente enxergo além! Vejo além do que os olhos virtuosos podem ver. Talvez até consigam visualizar, mas não compreender.
Olhos virtuosos tendem a julgar o que vêem e param por ai. Olhos embriagados procuram entender as motivações daquilo que testemunham, desafiam os limites e cutucam as feridas. O que te fascina mais? Um olhar reprovador ou um olhar cúmplice? À sua escolha!
Quanto aos aromas posso dizer que são um termômetro realmente eficaz! Tendem a nos dizer se algo vale a pena ou não, afinal apenas o que não serve mais cheira mal, seja um prato, um ato ou a podridão de se apegar demasiadamente ao que já se passou. Quem nunca se inebriou com o aroma da pessoa amada, que virtuosamente me julgue! Mas tudo ao seu tempo.
Antes perceba que se os aromas mostram o caminho, o paladar os percorre. Um vinho não deve ser julgado apenas pelo seu gosto, suave ou seco. E sua temperatura? E o seu teor alcoólico? E a companhia? Muitas vezes a embriaguez se deve mais à companhia do que propriamente à bebida.
Se já se embriagou com o gosto de “água na boca”, mesmo que inconscientemente, aprendeu a seguir os passos do seu objeto de desejo, ainda que este não esteja em seu campo de visão. Ouça seus passos se aproximando, perceba o som de sua respiração. É ofegante? Serena? Somente quem se embriaga do outro, pode sinceramente se declarar apaixonado!
E aos amantes das sutilezas, nada mais envolvente do que o toque. É ele quem denuncia a maciez da pele, sua textura e temperatura. Tire suas conclusões.
Há quem reprove os ébrios, mas certamente não se preocupam em perceber o que causou tal embriaguez, a luminosidade do olhar, o doce aroma, o sabor, a visão ou o toque? Ou ambos?
Embriagai-vos!
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